terça-feira, 2 de junho de 2026

A Mordaça Institucional: O Preço de Denunciar e a Luta para Não Ser Silenciada

Dizem para não nos calarmos. As campanhas na televisão nos incentivam a denunciar, a buscar ajuda, a discar 180, a discar 100. Prometem-nos uma rede de apoio e a proteção do Estado. Mas o que acontece quando o sistema que deveria nos acolher se torna o nosso maior agressor?
​A história está repleta de mulheres que foram silenciadas de forma brutal quando suas vozes se tornaram inconvenientes para o sistema ou para os homens ao seu redor. É impossível não pensar em Camille Claudel. Uma mulher genial, uma escultora à frente de seu tempo, que acabou trancafiada em um manicômio por 30 anos. A família e a sociedade não toleravam sua força, sua independência e suas denúncias, então usaram a medicina e o isolamento como ferramentas de silenciamento.
​Quando uma mulher grita por socorro e expõe a violência, a resposta das instituições, muitas vezes, ainda é tentar patologizá-la. Querem nos taxar de desequilibradas, loucas ou instáveis para descredibilizar a nossa verdade. O método mudou desde a época de Camille, mas a mordaça continua a mesma.
​Recentemente, tenho vivenciado o peso esmagador dessa violência institucional. Após reunir forças para denunciar a violência doméstica que sofri, encontrei portas se fechando. Vi a frieza de quem deveria me defender e, o mais aterrorizante: vi tentativas de arquivamento daquilo que destruiu a minha paz.
​Mas a crueldade não parou por aí. Fui ameaçada onde mais dói em uma mãe. Profissionais que deveriam zelar pelo bem-estar — agentes de proteção, médicos, psicólogas, figuras do Estado — deixaram claro que, se eu continuasse lutando por justiça, a guarda do meu filho poderia ser tirada de mim. Ameaçar a maternidade de uma vítima para forçá-la a aceitar a impunidade do seu agressor é uma das formas mais covardes de tortura psicológica.
​Chegaram ao absurdo de me instruir a parar de ligar para o Disque 180 e para o Disque 100. Aqueles que deveriam investigar, defender e cuidar viraram as costas. É desolador perceber que o sistema tenta te colocar de volta no cativeiro do silêncio, sob a ameaça de destruir a sua família.
​Eles querem me calar, assim como tentaram apagar tantas mulheres antes de mim. Querem que o medo me paralise. Mas a verdade é que o amor que sinto pelo meu filho e a clareza do que é justo são maiores que a intimidação deles.
​A Defensoria pode falhar. As instituições podem fechar os olhos. Mas eu não vou desistir. Sigo em frente, de cabeça erguida, sozinha com Deus. A minha voz não será arquivada.

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