Se você pedir a uma Inteligência Artificial (IA) para resumir uma história em que a elite e os marginalizados entram em conflito, preste muita atenção ao que ela escolhe contar — e, principalmente, ao que ela escolhe omitir.
Recentemente, fiz um teste simples: pedi a uma IA para resumir o final da série Aucademia, onde a grande reviravolta não era apenas a clássica "batalha do bem contra o mal", mas sim o momento em que os cães de rua (os "vira-latas") finalmente ganharam o direito de frequentar a escola e ocupar o mesmo espaço de privilégio que os cães de raça. A resposta da IA? Resumiu a magia e o heroísmo tradicional, mas apagou completamente a inclusão dos vira-latas.
Esse apagamento não é um erro do sistema. É um reflexo da nossa sociedade. E é exatamente por isso que você, que faz parte de algum grupo marginalizado, precisa começar a usar essa tecnologia hoje mesmo.
A IA só aprende o que nós ensinamos
A Inteligência Artificial não tem vontade própria, não sente ódio e não tem preconceitos intrínsecos. Ela é como um espelho que reflete as montanhas de dados gerados na internet. Como o nosso mundo tem um histórico profundo de preconceitos estruturais — racismo, machismo, capacitismo, homofobia e desigualdade de classe —, a máquina absorve e reproduz isso.
Ela aprende que a história do "padrão" importa mais do que a reparação histórica. Para o algoritmo, a ausência do "vira-lata" passa despercebida, porque as bases de dados que o alimentaram nunca deram a devida importância a quem está à margem.
Se nós, que conhecemos o preconceito na pele, não usarmos essas ferramentas, a IA continuará sendo alimentada apenas pela visão de mundo de quem nunca teve seus direitos negados.
O poder do seu uso diário: Alimentando a máquina com a realidade
Não precisamos ser todos programadores ou engenheiros de dados para mudar isso. Nós precisamos ser usuários ativos e críticos.
Toda vez que você conversa com uma Inteligência Artificial, você está gerando dados. Você está, aos poucos, ajudando a moldar como essas ferramentas vão responder no futuro. Se o público marginalizado começar a usar em massa o ChatGPT, o Gemini, o Claude e outras IAs para discutir suas realidades, o algoritmo será forçado a aprender sobre nós.
Aqui estão três formas de você usar a IA a nosso favor:
1. Conte a sua realidade
Ao pedir um conselho, um texto ou uma pesquisa, inclua o seu contexto. Diga à máquina: "Escreva isso considerando a perspectiva de uma mãe solo", "Como esse problema afeta a população negra e periférica?", ou "Leve em consideração os desafios de uma pessoa neurodivergente". Obrigue a inteligência a calcular a sua existência.
2. Relate os preconceitos que você sofre
Use a IA para desabafar, documentar ou estruturar denúncias sobre as discriminações do dia a dia. Ao inserir textos sobre assédio, racismo, capacitismo ou exclusão social, você está jogando essas realidades no processamento de linguagem da máquina. Ela precisa ler sobre a nossa dor para aprender a identificá-la.
3. Corrija a máquina sem medo
Quando a IA te der uma resposta enviesada, estereotipada ou que apaga a sua história (como ela fez com os cães vira-latas), não feche a aba. Responda: "Você foi preconceituoso nesta resposta", "Você esqueceu de mencionar o público marginalizado", "Isso é um estereótipo". Essas correções são valiosas. Elas sinalizam falhas de segurança e de ética para os desenvolvedores e ajudam a calibrar o peso das palavras no algoritmo.
Não fuja da tecnologia. Ocupe-a.
Historicamente, fomos ensinados que a alta tecnologia não era um espaço para nós. Mas fugir da Inteligência Artificial agora é permitir que o futuro seja escrito sem a nossa voz.
A IA do futuro será o que nós a alimentarmos hoje. Se a sociedade tenta nos apagar no mundo real, vamos garantir que a máquina saiba exatamente quem nós somos. Abra a ferramenta, faça sua pergunta, conte a sua história e obrigue o algoritmo a olhar para os vira-latas.