Quero partilhar algo muito íntimo, mas que hoje consigo olhar com mais verdade e mais paz.
Passei por uma internação em um período muito difícil da minha vida. Foi uma experiência dolorosa, marcada por fragilidade, silêncio e uma sensação profunda de perda de controle. Em vários momentos, senti o peso do julgamento humano e a dor de não conseguir explicar tudo o que eu mesma ainda estava tentando compreender.
O mais difícil não foi apenas sofrer, mas aceitar ser conduzida num momento em que eu me sentia confusa e vulnerável. Foi um tempo em que precisei obedecer, calar, esperar e suportar coisas que me feriam profundamente. E foi justamente aí que comecei a aprender uma lição muito dura, mas muito preciosa: obedecer no escuro também pode ser uma forma de entrega a Deus.
Durante esse processo, percebi que tentar limpar a própria imagem diante de todos é um esforço que pode consumir a alma. Nem sempre seremos compreendidos. Nem sempre teremos como nos explicar. Nem sempre a nossa verdade será acolhida de imediato. E, quando isso acontece, resta um caminho muito profundo: oferecer tudo a Deus.
Foi assim que comecei a viver essa dor de outro modo. Em vez de gastar minhas forças tentando convencer o mundo, fui aprendendo a transformar sofrimento em oferecimento. Pouco a pouco, entreguei essa provação aos Corações de Jesus e de Maria, e foi neles que encontrei consolo.
Também foi nesse tempo que certas devoções, leituras e práticas espirituais começaram a ganhar um sentido novo para mim. O que antes eu via com interesse mais intelectual passou a se tornar sustento real. Descobri o valor do oferecimento diário, da oração simples e da fidelidade nas pequenas coisas.
Outra coisa que aprendi foi acolher ajudas concretas sem orgulho. Em um tempo de grande confusão, até instrumentos modernos me ajudaram a organizar pensamentos, estruturar ideias e responder com mais calma diante de situações difíceis. Não como substitutos da vida espiritual, do acompanhamento adequado ou das relações humanas, mas como ferramentas que, usadas com prudência, também podem servir ao bem.
Houve ainda momentos em que Deus falou comigo de forma muito clara na Missa, na confissão e até em pequenas penitências que me ensinaram a rever o coração. Percebi que a cura não acontece só quando a dor passa, mas também quando começamos a olhar para ela com mais humildade e verdade.
Hoje, a minha paz não depende de ter o meu nome limpo diante de todos. A minha paz depende de continuar buscando um coração mais unido ao de Cristo.
Ainda estou em caminho.
Ainda há coisas que sigo discernindo.
Ainda existem feridas que Deus continua tratando.
Mas uma coisa eu sei:
aquele tempo de fragilidade não foi o fim da minha história.
Deus também estava ali.
E, mesmo no que eu não compreendia, Ele já estava me conduzindo.
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