sábado, 25 de julho de 2026

​Do Sertão à Tecnologia: O que a escassez me ensinou sobre fé e Sistemas Legados

Senhora lavando louça no nordeste



Uma das heranças mais valiosas que recebi dos meus pais não veio em forma de bens, mas numa maneira de olhar para o que nos cerca: reconhecer valor nas coisas simples. Eles nasceram no sertão do Nordeste e, desde cedo, aprenderam que o recurso mais precioso muitas vezes é a água. Essa lição entrou no cotidiano da casa como um gesto repetido, quase ritual.

Minha mãe me ensinou a lavar a louça com cuidado. Primeiro, enchia-se uma bacia com água e sabão para ensaboar; depois, outra bacia para enxaguar. Cada prato, cada colher, passava por esse processo com atenção. O movimento era econômico e preciso: não se deixava a torneira aberta, não se desperdiçava uma gota. Hoje, ao lembrar desses gestos, vejo neles uma eficiência prática — tão bem pensada quanto o ciclo de uma lava-louças moderna, que reaproveita e otimiza a água. A comparação não é técnica, é uma forma de reconhecer que sabedoria popular e tecnologia podem convergir no mesmo propósito.

Recordo com nitidez uma tarde na casa do meu padrinho. Não havia água encanada; a vida ali dependia da cisterna e do rio. O filtro de barro, com seu cheiro terroso e a água fresca que dele saía, era um pequeno altar de simplicidade. Ver a família encher copos, lavar utensílios e cuidar da água como se fosse um bem raro deixou uma marca profunda em mim. Era um modo de viver que ensinava respeito pela natureza sem grandes discursos — apenas ações.

Meu pai repetia com frequência uma frase que virou lema: “reaproveitar tudo ao máximo.” Ele dizia isso com a naturalidade de quem aprendeu a consertar, remendar e transformar. Aprendi a olhar restos não como fim, mas como matéria-prima para algo novo. Esse princípio se manifestou de maneiras práticas e silenciosas ao longo da minha vida.

No meu altar em casa, por exemplo, reaproveito a cera das velas. Em vez de descartar os pedaços que sobram, recolho a cera derretida numa caneca. Quando há cera suficiente, moldo um novo pavio e acendo outra vela. O gesto é simples: mãos que juntam, moldam e acendem. A nova chama não é apenas luz física; é continuidade de uma intenção, uma oração que prossegue sem ostentação.

Uma vela acesa quase apagando por ter sido usada até o fim

Meu altar doméstico



Levo a mesma postura para o meu trabalho com tecnologia. No nosso campo existe uma atração constante pelo novo, pela solução que promete revolucionar tudo. Ainda assim, muitas vezes o caminho mais sensato é olhar para o que já existe: entender a lógica construída, atualizar, refatorar e reaproveitar. Sistemas legados carregam conhecimento, regras de negócio e tempo investido. Respeitá-los e transformá-los é uma forma de economia — de recursos, de esforço e de memória coletiva.

Lembro também de uma passagem do livro A Pele da Cultura, de Derrick de Kerckhove, que me fez pensar sobre a tentação do novo. A inovação é necessária, mas não pode ser sinônimo de descarte. Há sabedoria em equilibrar criação e conservação, em saber quando reinventar e quando aprimorar. Essa reflexão dialoga bem com as lições do sertão e com as práticas do dia a dia.

No sertão, na fé ou no código, a mesma lição se repete: valorizar o que temos e dar novo propósito ao que poderia ser descartado. Não se trata de negar o novo, mas de cultivar um olhar que transforma desperdício em recurso e rotina em cuidado. É uma modéstia prática — feita de gestos pequenos, constantes e cheios de sentido.